COLETÂNEA DE OBRAS CÉLEBRES - R0MEO

Uma coletânea de Obras famosas de grandes escritores da literatura universal.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

O CÃO FIEL E O CRUEL MENINO - Por Victor Hugo

                   Era uma vez um cão muito bom, de cujo nome não consigo recordar-me; só sei que era um cão excelente, em toda a extensão da palavra; teria dado qualquer coisa para ser seu amigo. Por desgraça era muito infeliz e além disso quase nunca se lavava, mas a culpa tinha-a o dono, um mocinho rebelde que costumava maltratá-lo.
                    Um dia, este perverso mocinho foi para a borda dum lago, bastante profundo, para fazer uma brincadeira que certamente conhecem. O mocinho tinha um punhado de pedras e arrojava-as à superfície do lago, procurando que tocasse na água, saltando três ou quatro vezes. O cão estava sentado à distância, observando-o. De repente o mocinho escorregou pela borda musgosa do lago e caiu à água. Já estava quase a afogar-se, quando o animal, saltando atrás dele, o agarrou pela rupa e salvou, conduzindo-o para terra. Mas aquele perverso, zangado porque o cão, ao tirá-lo do lago, lhe tinha rasgado um pouco sua roupa, atirou o animalzinho à água em busca do seu chapéu, e quando o viu a nadar começou a atirar-lhe pedras, e por pouco não fez com que o nobre animal se afogasse. 
                   Um lobo faminto e feroz viu o que acabava de acontecer, e imaginando que o pobre cão se alegraria vendo-se livre d'um dono tão mau e ingrato, aproximou-se, sem fazer barulho, do cão e murmurou-lhe ao ouvido: "Deixa que o devore."
                      Mas o cão fingiu ser surdo d'aquele ouvido, e o lobo, cansado de falar, atirou-se ao mocinho. O fiel cão, porém, arremeteu por sua vez contra o lobo, e depois da encarniçada luta conseguiu afugentá-lo. Entretanto o mau dono tinha se escondido atrás d'uma árvore e armara-se com um pau.
                   O bom animal correu para o amo, alegríssimo pela vitória, mas o mocinho, com voz iracunda, exclamou: 
                 - Para trás, feio bicho! Porque me amedrontaste lutando daquela maneira com aquele horrível animal? Bruto, brigão!. 
                 Mal tinha acabado de dizer estas palavras, desatou a dar pauladas no infeliz animal e acabou o expulsar às pedradas. 
             Mas o nobre cão seguiu fielmente o seu malvado amo, que, sem nunca se cansar de cometer más ações, entrou num pomar para roubar maçãs. Bem sabia que o dono do pomar era um homem que não tinha contemplação alguma com os ladrões; mas imaginava que naquela ocasião estava o dono ausente, no mercado. Começou a apanhar maçãs e a atirar ao pobre cão as que encontrava verdes. De repente apareceu o homem e, desesperado, foi-se a ele armado com uma espingarda. Apontou com raiva, ao mocinho e disse-lhe: 
                  - Ou me pagas imediatamente as maçãs ou disparo. 
                 O perverso mocinho não tinha nem uma miserável moeda de cobre nos bolsos. Vendo-se perdido, começou a gritar cheio de terror: 
                  - Cachorro, cachorro, a mim!
                 Os cães não podem  trepar às árvores, mas aquele podia. Saltou como se fosse feito de borracha, e segurando-se aos ramos com os dentes conseguiu chegar ao pé do amo e protegeu-o com o seu corpo, precisamente no momento em que o dono do pomar disparava a arma. 
              A bala penetrou no corpo do bravo e nobre animal. O pobrezinho voltou os olhos moribundos para o mocinho, como a implorar-lhe auxílio, mas este já ia muito longe, correndo a bom correr como ladrão que era. Assim morreu o fiel cão, vítima da sua inquebrantável lealdade. 
               - O que foi feito desse menino tão malvado? perguntou Joana (netinha de Victor Hugo), nervosa de indignação ao ouvir contar os maus tratos que o cãozinho sofrera.
           - Continuou a ser mau, respondeu o avô, e pagou-o muito caro, porque ninguém o estimou nunca. 

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

CONHEÇA O GRANDE POETA VICTOR HUGO

                  O grande poeta francês Victor Hugo era completamente apaixonado pelas crianças, principalmente por seus netinhos dos quais sempre procurava estar próximo. Como se costuma dizer, era o tipo do avô que fazia todas as vontades dos netos com risco de estragá-los. 
                  Uma de suas obras mais notáveis "A arte de ser avô", é uma prova da afeição que dedicava à sua netinha Joana, simpática menina, muito vivaz, de quem seu avô era humilde escravo. 
                  Em certa ocasião recebeu a visita de um importante senador que lhe veio consultar sobre assunto de Estado; encontrou o velho poeta andando engatinhando pelo quarto com Joana e seu irmãozinho Jorge montados sobre suas costas. 
               " - Agora, avozinho, senta-se", disse Joana quando se cansou de brincar; " - senta-te e conta-nos uma história".  
                " - É muito difícil inventar histórias, replicou o avô."
                " - Não para ti", disse Joana, acariciando-o; escreves muitas, mas conta-nos uma que ainda não esteja nos teus livros, avozinho". 


A BOA PULGA E O MAU REI
Era uma vez um rei muito mau que maltratava os seus súditos, mas estes não podiam destroná-lo porque tinham um grande exército para a sua defesa. 
Todas as manhãs se levantava de pior humor que na noite antecedente, até que isto chegou aos ouvidos duma pulga muito amável e de muito bons sentimentos. Nem todas as pulgas são assim, mas aquela tinha sido muito bem educada; por isso só mordia nas pessoas quando tinha muita fome, e mesmo assim punha todo o seu cuidado em não fazer mal. 
" - Vai ser difícil fazer entrar este rei no bom caminho" disse a si mesma a pulga; " contudo, vou tentá-lo". 
Naquela noite, quando o rei começou a a conciliar tranquilamente o sono, sentiu qualquer coisa como uma picada dum alfinete. 
" - Oh! o que é isto? gritou o rei.
" - Uma pulga que quer castigar-te". 
" - Uma pulga? Vamos ver. Espera um pouco". 
E levantando-se furioso da cama o rei sacudiu lençóis e cobertores, mas sem poder encontrar a pulga, pela simples razão de que esta se havia escondido na barba do monarca. 
Pensando tê-la afugentado espantada, o raivoso rei tornou a deitar-se, mas assim que reclinou a cabeça na almofada, a pulga deu um salto e mordeu-o outra vez. 
" E atreveste morder-me outra vez, abominável inseto?". exclamou. "N~~ao tens mais que o tamanho dum grãozinho de areia e atacas os mais poderosos da terra? 
A pulga, sem se incomodar sequer em responder, continuou a morder. Em toda a noite não poupou  o rei impedindo-lhe de fechar o olho, que no dia seguinte levantou-se de péssimo  humor. Mandou fazer uma limpeza extraordinária e vinte sábios, armados com potentíssimos microscópios, examinaram cuidadosamente o quarto e tudo quanto nele se encontrava. Mas não acharam a pulga, porque se tinha escondido debaixo da dobra do vestido que o rei levava sobre seu corpo. Naquela noite o monarca, necessitando de repouso, deitou-se muito cedo. 
" - O que é isto?" gritou ao sentir uma terrível picada. 
"A pulga." 
"- O que queres?" 
" - Que me obedeças e faças feliz o teu povo." 
" - Onde esão os meus soldados: Onde estão os meus generais, os meus ministros?" gritou o rei.
Todos entraram às pressas no aposento real. Fizeram a cama em pedaços, rasgaram o papel das paredes, arrancaram o pavimento, e, perante tudo isto, a pulga estava muito bem escondidinha na cabeleira do rei. Dirigiu-se este para outro aposento, no qual tratou de dormir, mas a pulga deu outro salto, começou a mordê-lo e não o deixou descansar toda a noite. No dia seguinte o rei furioso, fez pregar um edital contra as pulgas, no qual ordenava ao seu povo que as exterminasse a todas com a maior brevidade possível. Mas nem assim se livrou do pequenino inseto, que o perseguia incessantemente. O seu próprio corpo ficou todo machucado dos milhares de beliscões e pancadas que em si mesmo dava nos esforços vãos que fazia para afastar a sua implacável inimiga. À força de passar a noite sem dormir, começou a ficar fraco e pálido, e com certeza teria morrido, se finalmente não se tivesse decidido a obedecer à pulga. 
" - Entrego-me", disse em tom lastimoso o grande monarca quando a pulga tornou a morder-lhe.
" - Farei tudo quanto quiseres. Fala".  

" - Deves fazer feliz o teu povo", disse a pulga. 
" - Que hei de fazer para conseguir?", perguntou o rei. 
"- Tens que abandonar imediatamente este país." 
" - Posso levar comigo apenas uma parte dos meus tesouros?" 
" Não!", exclamou a pulga. 
Mas não querendo ser demasiado severa, a pulga permitiu ao malvado rei encher os bolsos de ouro antes de se pôr  a caminho. Então o povo constituiu-se em república, governou-se a si mesmo e chegou a ser feliz. 
Tanto Joana como Jorge divertiram-se muito com este alegre conto, porque o avozinho, imitando o implacável rei, atormentado pela boa pulga, revolvia-se e batia-se com tão cômicos modos que os meninos rebentavam de riso. 

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O CÃO FIEL E O CRUEL MENINO 
Era uma vez um cão